Animais

Microplásticos em peixes

O pirarucu e o risco de respirar plástico

Nas águas da Amazônia, o pirarucu (*Arapaima gigas*) vive entre dois mundos. Em lagos com baixo oxigênio, esse peixe gigante sobe à superfície para respirar ar – uma adaptação que existe há mais de 100 milhões de anos. Mas essa mesma característica que garante sua sobrevivência agora o torna vulnerável a uma nova ameaça: a poluição por microplásticos.
O pirarucu não sobrevive mais de 10 minutos sem subir à superfície. Ao fazê-lo, entra em contato direto com os microplásticos que flutuam na película da água. Essas partículas podem obstruir a glote, afetar células sensíveis à oxigenação e desencadear processos inflamatórios, desviando a energia do peixe de funções vitais.

A contaminação se espalha por toda a bacia

Estudos já encontraram microplásticos em rios de grande volume (Amazonas, Negro, Tapajós), em igarapés urbanos, lagos e manguezais. Em Manaus, a concentração em igarapés chegou a 74.550 partículas por metro cúbico. No Lago Puraquequara, metade dos jaraquis analisados – o peixe mais consumido no Amazonas – continha plástico no trato digestivo.
A dinâmica da água influencia a contaminação: na cheia, os plásticos se espalham por áreas alagadas; na seca, concentram-se em poças e sedimentos, aumentando a exposição dos peixes. A vegetação aquática também retém partículas, tornando-as acessíveis a animais que vivem nesses bancos.

Pequenos peixes, grande exposição

Em igarapés do Pará, pesquisadores encontraram microplásticos nas brânquias e no trato digestivo de praticamente todas as espécies analisadas – em média, 5,6 partículas por indivíduo. Mesmo peixes pequenos, como o jacundá (7 cm), acumulam partículas nas brânquias, o que pode prejudicar a respiração e o sistema imunológico.

O tamoatá e os efeitos na saúde dos peixes

O tamoatá (*Hoplosternum littorale*), que vive no fundo de lagos e se alimenta de detritos, ingere plástico depositado no sedimento – onde a concentração pode chegar a 13 milhões de partículas por metro cúbico. Estudos mostram que uma concentração de apenas 0,0005% de microplástico na dieta já aumenta o estresse e causa perda de peso nos peixes.

Impacto na saúde humana e na segurança alimentar

O consumo de peixe na Amazônia é cinco vezes maior que a média nacional: 14 kg por pessoa/ano contra 2,8 kg. Em comunidades ribeirinhas, o número é ainda mais alto. A contaminação por microplásticos não afeta apenas a conservação das espécies, mas também a segurança alimentar, já que parte da energia que seria usada para o crescimento do peixe é desviada para combater processos inflamatórios.
Embora ainda não haja estudos específicos sobre a transferência de microplásticos para tecidos comestíveis de peixes amazônicos, pesquisas internacionais já detectaram partículas em músculos de espécies comerciais. Os cientistas alertam que essa via de contaminação é altamente provável na região e que a qualidade do ambiente está diretamente ligada à qualidade da vida humana.

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