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O desafio de estudar espécies invisíveis

O gato-de-pés-negros (*Felis nigripes*) é um dos felinos mais esquivos da África. Passa a maior parte do dia escondido em tocas e emerge apenas à noite, o que torna seu estudo extremamente difícil. Métodos tradicionais, como armadilhas fotográficas, muitas vezes são ineficazes.
Para contornar esse problema, a bióloga Michelle Schroeder recorre a uma estratégia pouco convencional: duas cadelas da raça German Shorthaired Pointer, Lyka e Sebala, treinadas para farejar fezes dos gatos. Enquanto Schroeder encontrou apenas quatro amostras em mais de um ano, Lyka localizou centenas em poucos meses, permitindo o monitoramento genético não invasivo da espécie.

Fezes como "pepitas" de dados genéticos

As fezes dos gatos-de-pés-negros são particularmente difíceis de encontrar, pois eles as depositam em locais aleatórios: dentro de tocas de porcos-da-terra, sob arbustos ou em outros pontos discretos. "De certa forma, cada amostra é uma surpresa", diz Schroeder. "Isso me torna completamente dependente dos cães."
As amostras permitem determinar o sexo do animal, identificar indivíduos e estimar o tamanho da população. Análises laboratoriais também revelam a dieta e os parasitas intestinais. Os resultados até agora são encorajadores: amostras de duas áreas na Namíbia e África do Sul mostram níveis saudáveis de diversidade genética, indicando que os gatos ainda conseguem se deslocar pela paisagem semiárida.

De felinos a pangolins e coelhos

O sucesso com os gatos levou Schroeder a testar os cães com outra espécie difícil de rastrear: o pangolim-de-Temminck (*Smutsia temminckii*). O objetivo era construir um banco de dados genético para rastrear a origem de escamas apreendidas no tráfico ilegal.
Mas as fezes de pangolim – compostas principalmente de cupins e areia – se degradam rapidamente e desaparecem em um ou dois dias. Schroeder adaptou a estratégia: os cães começaram a buscar os locais de alimentação, onde o pangolim deixa um forte odor ao cavar. Nessas áreas, a equipe coletou amostras biológicas frescas, incluindo fezes e outros vestígios, dos quais extraíram DNA.
O projeto, no entanto, foi interrompido em setembro de 2025 por falta de verba, e Schroeder busca financiamento alternativo para retomar o trabalho de campo.
Outro exemplo é o uso de cães para localizar o coelho-rivier (Bunolagus monticularis), uma espécie criticamente ameaçada. A ecologista Aliénor Brassine combinou cães farejadores com armadilhas fotográficas para confirmar a presença da espécie em áreas propostas para desenvolvimento de energia eólica, ajudando a proteger seu habitat.

Um potencial ainda pouco explorado

Segundo os pesquisadores, o potencial dos cães farejadores para localizar outras espécies ameaçadas, plantas raras ou invasoras é enorme e ainda pouco utilizado na África. "Os cães não têm preconceitos", diz Rox Brummer, da ONG Green Dogs Conservation. "Enquanto os pesquisadores partem de hipóteses sobre onde os animais podem estar, os cães simplesmente seguem o odor, o que pode revelar padrões inesperados."
Apesar do trabalho árduo, os pesquisadores destacam que os cães não são apenas ferramentas de trabalho, mas também companheiros – e sabem ser apenas cães quando não estão farejando espécies escondidas na savana.

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